domingo, 12 de agosto de 2012

(Quase) O fim do do mundo. - Parte I

Uma observação através do espelho do carro. Sua janela, escura, refletia com clareza o que acontecia no ambiente. Pessoas fumando, bebendo, perdidas, acompanhadas, todavia, visivelmente solitárias. A nicotina imprimia um tom amarelado nos dedos, enquanto a fumaça dos cigarros se dissipava pelo ar. O barman, careca e gordo, fazia um discreto sinal com as mãos à procura de vender mais uma cerveja. Os copos, em sua maioria, pela metade, como os indivíduos que os consumiam.

Éramos três, apenas. Sentados na mesa, conversas sem qualquer pretensão aparente e olhares que enxergavam o próprio interior. As bocas movimentavam-se, entre uma conversa e outra, apenas para mais uma golada titubeante da cerveja. Observávamos, lentamente, o caminhar barulhento dos carros e o falatório  das pessoas. Futebol, mulheres, cervejas: esses eram os tópicos mais comentados.

Entre uma conversa e outra, fazíamos de conta que o mundo não era assim. Não poderia sê-lo, tamanha era sua vulgaridade e, ao mesmo tempo, inocência perante ao nosso próprio universo. Talvez realidades paralelas, como diz um amigo próximo. Talvez apenas estranhos que procuram algum tipo de conexão com o objetivo de sanar um vazio impreenchível, uma expectativa infantil de suprir uma necessidade insaciável. O rumo da noite estava traçado, através das banalidades rotineiras e do desfecho (im)previsível.

Já eram 3 e porrada da manhã. Os copos, assim como em outrora, estavam pela metade, mas dessa vez, consumimos uma quantidade considerável de brejas. As carteiras de cigarro estavam no final e dividíamos o que tínhamos, receosos com o restante da madrugada. Um dos amigos, um sujeito quieto e reservado, dissertava sobre as inúmeras possibilidades que a vida nos oferece, e, sobretudo, pela dificuldade em escolhê-las sem arrepender-se no futuro. Um tanto quanto vago, mas não podemos esperar grandes discursos à essa hora.

Quatro da manhã. As cervejas eram retiradas pelo garçom, enquanto um vira-lata qualquer adentrava-se no bar com a esperança de encontrar alguma carne em processo de apodrecimento, o que seria uma vitória à essa altura. Apodrecidos também estavam os últimos pinguços, inclinado sob as mesas do bar, esperando sei-lá-o-quê, que deveria vir de não-sei-onde. Ou apenas dormindo, era minha melhor cartada. Enfim, um sentimento de derrota subitamente impregnado em suas respectivas vidas.

Levantamo-nos às 04:15. Noite fria, vento gelado, corações quebrados. Um "meio" dinheiro, uma "meia" vida, uma "meia" realidade, uma "meia" incerteza. Estava tudo pela metade, literalmente. Os pensamentos, as reflexões, inclusive o copo de cerveja fora deixado para trás. Somente o maço de cigarro que, por conta da noite gelada, esquentava-nos (ou oferecia-nos essa antiga ilusão), estava vazio. As conversas, debatidas com um entusiasmo eloquente no decorrer da noite, eram esquecidas antes mesmo de inciarem. O clima "morto-vivo", ou "zumbi", conhecido através histórias apocalípticas, estava definitivamente consumado, sendo ratificado em cada pessoa que encontrávamos. Contudo, uma frase ecoou distantemente:

- Minha cachaça, porra! Minha cachaça! - Gritava desesperadamente o homem, assustando-nos perante à sua notável embriaguez.

O homem, vestido como um maltrapilho, trazia consigo uma garrafa de uísque pela metade, sem a tampa que a fechava. Ademais, apesar da embriaguez, parecia inofensivo, tamanho era seu descontrole ao caminhar pela rua.

Paramos na calçada com o objetivo de dá-lo alguma atenção. Não sei porque, ao certo. Talvez pra demonstrar uma espécie de compaixão ao próximo, algo semelhante à piedade à própria humanidade. O sujeito, então, ofereceu-nos um gole do seu bendito (ou maldito) uísque 12 anos, fazendo-nos, de maneira um tanto óbvia, recusá-lo, sem pestanejar. Insistia o sujeito, completamente entregue à sua própria fuga, refém da sua própria condição. Estávamos nós, próximos da incredulidade, conversando (ou melhor, nós falávamos, enquanto o sujeito sussurrava palavras praticamente indistinguíveis) sobre os assuntos mais diversos que uma madrugada é capaz de nos oferecer.

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