Precipitei-me nas decisões que tomara, nas renúncias que escolhera. Da vida, pouco levamos, contudo, somos levados por muito pouco. Carrego lembranças esfumaçadas e insignificantes para alhures, mas de valor pleno para mim. Trago desejos personificados, sujeitos multifacetados; conjugo sem saber, o verbo "viver" e esqueço-me das angústias de outrora.
Realidade dissipada. Caminhos percorridos, personas escolhidas. Dentre os córregos mais distantes, vislumbro as correntezas mais pulsantes; o perigo constante, essa farsa imediata, uma sabedoria errante. Vive-se aqui, morre-se ali, dos moribundos aos heróis; dos racionais aos passionais; dos amedrontados aos corajosos; afinal, vive-se e morre-se, em cada fragmento, em cada momento, uma desintegração sóbria de nós mesmos.
Loucura discreta, nessa poesia indireta. Uma sobriedade irreal, destreza fatal. Conheço, através dos sussurros, o silêncio pronunciado e especulado em uma fração de segundo; estremeço-me, reflito-me, questiono-me; pormenores escassos e pouco elucidadores, dos vestígios da reflexão solitária.
Somente quando o último dos seres sucumbir ao próprio desespero, quando apenas a última das estrelas explodir sob o chão de concreto, direi, para que ninguém mais possa escutar, a verdade mais insólita que sequer o mais solitário dos seres seria capaz de conceber: Estou só.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Insaciável.
Santidade imaculada,
Desejos despejados,
Loucura inflamada,
Sonhos cortajados,
Fadiga constante,
Denomino a rotina,
Esse eterno destoante,
À minha tenra sina
Do alvoroço premeditado
Ao silêncio momentâneo,
Um falatório refutado
Por um devaneio espontâneo
Esquina do poeta
Lar dos derrotados
Uma porta entreaberta
Um olhar dos maltratados.
Desejos despejados,
Loucura inflamada,
Sonhos cortajados,
Fadiga constante,
Denomino a rotina,
Esse eterno destoante,
À minha tenra sina
Do alvoroço premeditado
Ao silêncio momentâneo,
Um falatório refutado
Por um devaneio espontâneo
Esquina do poeta
Lar dos derrotados
Uma porta entreaberta
Um olhar dos maltratados.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Sem dias.
Sem horas pra contar,
Sem palavras pra tecer ,
Sem melodia pra cantar,
Sem chão pra viver
Sem falta pra sentir,
Sem rumo pra tomar,
Sem alegria pra sorrir,
Sem mundo pra decifrar
Vou discorrendo o morto tempo,
Na passividade do instante,
Na constância dos embargos,
Ao som de meu peito errante
Às margens do rio,
Persisto vagando,
Entre vidas e mortes,
Sombrio encanto
Sem prazo pra voltar,
Sem lágrimas pra escorrer,
Sem rumo pra caminhar,
Sem saída pra viver
Encontro o paraíso,
O embelezar da alvorada,
Na beleza de sua tolice,
Na imensidão de sua estrada.
(Poesia escrita por Lucas Dantas e Renan Furtado)
domingo, 12 de agosto de 2012
(Quase) O fim do do mundo. - Parte I
Uma observação através do espelho do carro. Sua janela, escura, refletia com clareza o que acontecia no ambiente. Pessoas fumando, bebendo, perdidas, acompanhadas, todavia, visivelmente solitárias. A nicotina imprimia um tom amarelado nos dedos, enquanto a fumaça dos cigarros se dissipava pelo ar. O barman, careca e gordo, fazia um discreto sinal com as mãos à procura de vender mais uma cerveja. Os copos, em sua maioria, pela metade, como os indivíduos que os consumiam.
Éramos três, apenas. Sentados na mesa, conversas sem qualquer pretensão aparente e olhares que enxergavam o próprio interior. As bocas movimentavam-se, entre uma conversa e outra, apenas para mais uma golada titubeante da cerveja. Observávamos, lentamente, o caminhar barulhento dos carros e o falatório das pessoas. Futebol, mulheres, cervejas: esses eram os tópicos mais comentados.
Entre uma conversa e outra, fazíamos de conta que o mundo não era assim. Não poderia sê-lo, tamanha era sua vulgaridade e, ao mesmo tempo, inocência perante ao nosso próprio universo. Talvez realidades paralelas, como diz um amigo próximo. Talvez apenas estranhos que procuram algum tipo de conexão com o objetivo de sanar um vazio impreenchível, uma expectativa infantil de suprir uma necessidade insaciável. O rumo da noite estava traçado, através das banalidades rotineiras e do desfecho (im)previsível.
Já eram 3 e porrada da manhã. Os copos, assim como em outrora, estavam pela metade, mas dessa vez, consumimos uma quantidade considerável de brejas. As carteiras de cigarro estavam no final e dividíamos o que tínhamos, receosos com o restante da madrugada. Um dos amigos, um sujeito quieto e reservado, dissertava sobre as inúmeras possibilidades que a vida nos oferece, e, sobretudo, pela dificuldade em escolhê-las sem arrepender-se no futuro. Um tanto quanto vago, mas não podemos esperar grandes discursos à essa hora.
Quatro da manhã. As cervejas eram retiradas pelo garçom, enquanto um vira-lata qualquer adentrava-se no bar com a esperança de encontrar alguma carne em processo de apodrecimento, o que seria uma vitória à essa altura. Apodrecidos também estavam os últimos pinguços, inclinado sob as mesas do bar, esperando sei-lá-o-quê, que deveria vir de não-sei-onde. Ou apenas dormindo, era minha melhor cartada. Enfim, um sentimento de derrota subitamente impregnado em suas respectivas vidas.
Levantamo-nos às 04:15. Noite fria, vento gelado, corações quebrados. Um "meio" dinheiro, uma "meia" vida, uma "meia" realidade, uma "meia" incerteza. Estava tudo pela metade, literalmente. Os pensamentos, as reflexões, inclusive o copo de cerveja fora deixado para trás. Somente o maço de cigarro que, por conta da noite gelada, esquentava-nos (ou oferecia-nos essa antiga ilusão), estava vazio. As conversas, debatidas com um entusiasmo eloquente no decorrer da noite, eram esquecidas antes mesmo de inciarem. O clima "morto-vivo", ou "zumbi", conhecido através histórias apocalípticas, estava definitivamente consumado, sendo ratificado em cada pessoa que encontrávamos. Contudo, uma frase ecoou distantemente:
- Minha cachaça, porra! Minha cachaça! - Gritava desesperadamente o homem, assustando-nos perante à sua notável embriaguez.
O homem, vestido como um maltrapilho, trazia consigo uma garrafa de uísque pela metade, sem a tampa que a fechava. Ademais, apesar da embriaguez, parecia inofensivo, tamanho era seu descontrole ao caminhar pela rua.
Paramos na calçada com o objetivo de dá-lo alguma atenção. Não sei porque, ao certo. Talvez pra demonstrar uma espécie de compaixão ao próximo, algo semelhante à piedade à própria humanidade. O sujeito, então, ofereceu-nos um gole do seu bendito (ou maldito) uísque 12 anos, fazendo-nos, de maneira um tanto óbvia, recusá-lo, sem pestanejar. Insistia o sujeito, completamente entregue à sua própria fuga, refém da sua própria condição. Estávamos nós, próximos da incredulidade, conversando (ou melhor, nós falávamos, enquanto o sujeito sussurrava palavras praticamente indistinguíveis) sobre os assuntos mais diversos que uma madrugada é capaz de nos oferecer.
Éramos três, apenas. Sentados na mesa, conversas sem qualquer pretensão aparente e olhares que enxergavam o próprio interior. As bocas movimentavam-se, entre uma conversa e outra, apenas para mais uma golada titubeante da cerveja. Observávamos, lentamente, o caminhar barulhento dos carros e o falatório das pessoas. Futebol, mulheres, cervejas: esses eram os tópicos mais comentados.
Entre uma conversa e outra, fazíamos de conta que o mundo não era assim. Não poderia sê-lo, tamanha era sua vulgaridade e, ao mesmo tempo, inocência perante ao nosso próprio universo. Talvez realidades paralelas, como diz um amigo próximo. Talvez apenas estranhos que procuram algum tipo de conexão com o objetivo de sanar um vazio impreenchível, uma expectativa infantil de suprir uma necessidade insaciável. O rumo da noite estava traçado, através das banalidades rotineiras e do desfecho (im)previsível.
Já eram 3 e porrada da manhã. Os copos, assim como em outrora, estavam pela metade, mas dessa vez, consumimos uma quantidade considerável de brejas. As carteiras de cigarro estavam no final e dividíamos o que tínhamos, receosos com o restante da madrugada. Um dos amigos, um sujeito quieto e reservado, dissertava sobre as inúmeras possibilidades que a vida nos oferece, e, sobretudo, pela dificuldade em escolhê-las sem arrepender-se no futuro. Um tanto quanto vago, mas não podemos esperar grandes discursos à essa hora.
Quatro da manhã. As cervejas eram retiradas pelo garçom, enquanto um vira-lata qualquer adentrava-se no bar com a esperança de encontrar alguma carne em processo de apodrecimento, o que seria uma vitória à essa altura. Apodrecidos também estavam os últimos pinguços, inclinado sob as mesas do bar, esperando sei-lá-o-quê, que deveria vir de não-sei-onde. Ou apenas dormindo, era minha melhor cartada. Enfim, um sentimento de derrota subitamente impregnado em suas respectivas vidas.
Levantamo-nos às 04:15. Noite fria, vento gelado, corações quebrados. Um "meio" dinheiro, uma "meia" vida, uma "meia" realidade, uma "meia" incerteza. Estava tudo pela metade, literalmente. Os pensamentos, as reflexões, inclusive o copo de cerveja fora deixado para trás. Somente o maço de cigarro que, por conta da noite gelada, esquentava-nos (ou oferecia-nos essa antiga ilusão), estava vazio. As conversas, debatidas com um entusiasmo eloquente no decorrer da noite, eram esquecidas antes mesmo de inciarem. O clima "morto-vivo", ou "zumbi", conhecido através histórias apocalípticas, estava definitivamente consumado, sendo ratificado em cada pessoa que encontrávamos. Contudo, uma frase ecoou distantemente:
- Minha cachaça, porra! Minha cachaça! - Gritava desesperadamente o homem, assustando-nos perante à sua notável embriaguez.
O homem, vestido como um maltrapilho, trazia consigo uma garrafa de uísque pela metade, sem a tampa que a fechava. Ademais, apesar da embriaguez, parecia inofensivo, tamanho era seu descontrole ao caminhar pela rua.
Paramos na calçada com o objetivo de dá-lo alguma atenção. Não sei porque, ao certo. Talvez pra demonstrar uma espécie de compaixão ao próximo, algo semelhante à piedade à própria humanidade. O sujeito, então, ofereceu-nos um gole do seu bendito (ou maldito) uísque 12 anos, fazendo-nos, de maneira um tanto óbvia, recusá-lo, sem pestanejar. Insistia o sujeito, completamente entregue à sua própria fuga, refém da sua própria condição. Estávamos nós, próximos da incredulidade, conversando (ou melhor, nós falávamos, enquanto o sujeito sussurrava palavras praticamente indistinguíveis) sobre os assuntos mais diversos que uma madrugada é capaz de nos oferecer.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O bar da meia-noite
Duas da manhã de uma quinta-feira. O bar, chamado por seus consumidores pelo apelido de "boteco da meia-noite", estava prestes à fechar. O som, um jazz próximo do blues, ditava o ritmo dos que ali estavam. Ainda com expectativas sobre o restante da noite, os beberrões chamavam o garçom através de gritos e assobios, à procura de mais uma cerveja no grau. Em lata ou garrafa, não importa, eles só queriam mais um gole da loura mais fascinante da noite. E, pra acompanhar o clima, um maço de cigarro pela metade e conversas discontraídas.
Durante uma troca de discos, entra um homem. Magro, aparentemente 1,75, cabelos escuros e olhos castanhos. À essa altura, o relógio, que ficava posicionado em cima do balcão, marcava 02:30 da manhã. Os olhares voltaram-se, de forma discreta e confusa, para o homem que acabara de entrar, sem entender ao certo porque um indivíduo entra em um boteco à essa hora da madrugada.
O homem, cujo apelido era Zé, sentou-se em uma das mesas e, diferentemente dos outros, pediu uma dose de jack, sem gelo. Seus olhos procuravam algo ou alguém, talvez uma pessoa, uma mentira sincera ou uma razão sombria. De certo, o homem estava impaciente, ansioso, balançando os pés continuamente. Esperou mais 15 minutos e levantou-se, indo em direção ao seu carro.
Repentinamente, quando o local estava próximo do horário de finalizar mais um dia do seu expediente, uma mulher, morena, aproximadamente 1,65 de altura, cabelos cacheados e olhos castanhos, entra no bar e pede uma dose de vodka, pura, surpreendendo os zumbis da cachaça. O homem, voltou-se e olhou para o bar, como se ali, num rápido piscar de olhos, estivesse achado seu tão aguardado motivo. A mulher, virou-se após um gole seco na sua bebida e então...
Sorriu. Os dois, aparentemente conhecidos, se abraçaram sem jeito, com vergonha, representando uma certa distância entre ambos. O relógio, à essa altura marcava 02:47 da manhã e estava esvaziando pouco à pouco. Entre bebidas e cigarros, os "zumbis da cachaça" pagavam suas respectivas contas e pediam mais uma cerva "pra viagem", com a finalidade de concluir prazerosamente o desfecho da madrugada, findando, de maneira habitual, com uma latinha e dividindo cigarros derby.
Jazz & blues, direcionavam o clima da noite pra um final melancólico, porém bonito. As expectativas, quando trata-se desse horário, é tão pequena quanto uma formiga. Todavia, ainda havia pelo menos uma história em andamento: o casal, sentado na mesa mais próxima da saída, conquanto trocavam rápidas palavras. Um jogo de olhares estabeleceu-se, contudo, a timidez de ambos era nítida. Enquanto o rapaz lançava discretos sorrisos, a moça mexia impacientemente no cabelo, ajeitando-o à todo momento.
No transcorrer da conversa, a garota reparou num pequeno, porém perceptível detalhe físico do homem: seus dedos, finos e longos, estavam repletos de calos, denunciando sua provável profissão: músico. Intrigada, a garota perguntou:
-Por acaso, você é músico?
-Sim, toco em bares e boates, mas é apenas um bico, não ganho a vida com isso. - respondeu rapidamente o homem.
A mulher, que até então não sabia do talento de seu "amigo", surpreendeu-se com o fato e perguntou logo em seguida:
-Que tipo de música você toca? Rock, sertanejo, mpb...?
- Depende. O meu gênero preferido é rock mesmo, mas em alguns momentos, "preciso" tocar um sertanejo pra galera, já que é o ritmo do momento. Isso até me perturba um pouco, mas no fim, é necessário. - respondeu, com ar de segurança.
A garota então balançou positivamente a cabeça, como se concordasse, mas ao mesmo tempo, ressentisse o que o homem lhe contara.
Após 10 minutos de conversa, eles pareciam, finalmente, com algum nível de intimidade. Não era uma proximidade de quem já se conhecia há anos ou meses, mas o necessário para que ambos, nesse momento, se sentissem à vontade para expor suas ideias e conversarem sobre quaisquer assuntos. O cigarro, consumido em larga escala pelo nervosismo que o momento forçara, era deixado de lado, por alguns breves minutos. Enquanto o rapaz pedia sua quarta dose de Jack, a moça, uma apaixonada por bebidas, pedia sua primeira dose de Jack, iniciando uma mistura duvidosa. E o bar, "já" estava vazio, apenas com os dois jovens e um garçom mais ou menos embriagado, louco pra ir embora, mas esperançoso com a gorjeta que poderia receber.
Findam-se os olhares, em convergência para um único local: a próxima esquina. Vazia, insignificante e um tanto quanto sombria. O pose, fazia um interessante jogo de cores, reluzindo de maneira fraca nos paralelepípedos da rua. Suspeitava-se, um do outro, pelo observar que rondava pela atmosfera. As mãos, geladas, faziam um ligeiro movimento à procura do copo, sem sequer movimentarem os olhos. A atenção, para aquele momento pouco significante p´ra sociedade, mas que significavam muito pra ambos. Enquanto a mulher pensava na próxima ação do rapaz, o homem, coincidentemente, também pensava sobre sua próxima atitude.
- Um beijo, talvez? Não, cedo demais. Um carinho nas mãos? Não, sensível demais. - pensava o homem.
A mulher, por outro lado, esperava qualquer movimento do homem, esperava-o o mais rápido possível, não suportando mais o silêncio da noite.
Foi nesse exato momento, que o homem virou-se na direção da moça e disse, de maneira delicada e direta, o quanto gostava dela. Seu cabelo, seus olhos, seu nariz, tudo, p'ra ele, simbolizava a mais pura perfeição. Até os gestos mais simples, como o trago de um cigarro ou mesmo um olhar distraído, encantavam-no, segundo ele. Enfim, declarou, quase sem pensar, toda a sua admiração e porque não, paixão, pela jovem. A mulher, emocionada e sem-graça, olhava p'ra baixo e mordia vagarosamente os lábios, para evitar um sorriso largo perante as palavras do sujeito. Custava-lhe acreditar no que o homem lhe dissera e, sobretudo, custava-lhe achar palavras apropriadas para dizer.
Apenas silenciou-se. Decerto, faltaram-lhe palavras sensatas mas, finalmente, escancarou o sorriso de uma forma que o homem pudesse perceber a sua felicidade com o que ouvira. Ademais, o momento foi congratulado com um beijo tão tímido quanto sincero, numa forma da mulher expressar fisicamente o que sentia. Conquanto, a mente do homem, enchia-se de pensamentos e questionamentos. Mas procurou esquecer, da melhor maneira possível, para que o beijo não fosse atrapalhado com desnecessários pormenores.
Findou-se a noite, naqueles segundos intermináveis, e o garçom, exausto pelo horário (o relógio marcava 04:00 da manhã), sorriu, de forma boba e discreta, como se pensasse "é, acho que a gorjeta vai ser grande!". Os dois, completamente distantes do mundo que os rondava, finalizaram o beijo e olharam-se, com uma ternura inexplicável, satisfazendo-os ainda mais perante ao outro.
Pediram a conta, pois era assim, na cabeça de ambos, que a madrugada deveria terminar. Após aquele beijo, depois da afetiva troca de olhares e, lógico, com um cigarro na mão, os dois últimos do maço. A gorjeta, como era de se esperar, foi tremendamente satisfatória para o garçom, que sorriu e os agradeceu pela presença.
Uma mão colada à outra, um sorriso no rosto e uma aparente confusão acerca da trajetória de ambos. Afinal de contas, isso basta.
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No transcorrer da conversa, a garota reparou num pequeno, porém perceptível detalhe físico do homem: seus dedos, finos e longos, estavam repletos de calos, denunciando sua provável profissão: músico. Intrigada, a garota perguntou:
-Por acaso, você é músico?
-Sim, toco em bares e boates, mas é apenas um bico, não ganho a vida com isso. - respondeu rapidamente o homem.
A mulher, que até então não sabia do talento de seu "amigo", surpreendeu-se com o fato e perguntou logo em seguida:
-Que tipo de música você toca? Rock, sertanejo, mpb...?
- Depende. O meu gênero preferido é rock mesmo, mas em alguns momentos, "preciso" tocar um sertanejo pra galera, já que é o ritmo do momento. Isso até me perturba um pouco, mas no fim, é necessário. - respondeu, com ar de segurança.
A garota então balançou positivamente a cabeça, como se concordasse, mas ao mesmo tempo, ressentisse o que o homem lhe contara.
Após 10 minutos de conversa, eles pareciam, finalmente, com algum nível de intimidade. Não era uma proximidade de quem já se conhecia há anos ou meses, mas o necessário para que ambos, nesse momento, se sentissem à vontade para expor suas ideias e conversarem sobre quaisquer assuntos. O cigarro, consumido em larga escala pelo nervosismo que o momento forçara, era deixado de lado, por alguns breves minutos. Enquanto o rapaz pedia sua quarta dose de Jack, a moça, uma apaixonada por bebidas, pedia sua primeira dose de Jack, iniciando uma mistura duvidosa. E o bar, "já" estava vazio, apenas com os dois jovens e um garçom mais ou menos embriagado, louco pra ir embora, mas esperançoso com a gorjeta que poderia receber.
Findam-se os olhares, em convergência para um único local: a próxima esquina. Vazia, insignificante e um tanto quanto sombria. O pose, fazia um interessante jogo de cores, reluzindo de maneira fraca nos paralelepípedos da rua. Suspeitava-se, um do outro, pelo observar que rondava pela atmosfera. As mãos, geladas, faziam um ligeiro movimento à procura do copo, sem sequer movimentarem os olhos. A atenção, para aquele momento pouco significante p´ra sociedade, mas que significavam muito pra ambos. Enquanto a mulher pensava na próxima ação do rapaz, o homem, coincidentemente, também pensava sobre sua próxima atitude.
- Um beijo, talvez? Não, cedo demais. Um carinho nas mãos? Não, sensível demais. - pensava o homem.
A mulher, por outro lado, esperava qualquer movimento do homem, esperava-o o mais rápido possível, não suportando mais o silêncio da noite.
Foi nesse exato momento, que o homem virou-se na direção da moça e disse, de maneira delicada e direta, o quanto gostava dela. Seu cabelo, seus olhos, seu nariz, tudo, p'ra ele, simbolizava a mais pura perfeição. Até os gestos mais simples, como o trago de um cigarro ou mesmo um olhar distraído, encantavam-no, segundo ele. Enfim, declarou, quase sem pensar, toda a sua admiração e porque não, paixão, pela jovem. A mulher, emocionada e sem-graça, olhava p'ra baixo e mordia vagarosamente os lábios, para evitar um sorriso largo perante as palavras do sujeito. Custava-lhe acreditar no que o homem lhe dissera e, sobretudo, custava-lhe achar palavras apropriadas para dizer.
Apenas silenciou-se. Decerto, faltaram-lhe palavras sensatas mas, finalmente, escancarou o sorriso de uma forma que o homem pudesse perceber a sua felicidade com o que ouvira. Ademais, o momento foi congratulado com um beijo tão tímido quanto sincero, numa forma da mulher expressar fisicamente o que sentia. Conquanto, a mente do homem, enchia-se de pensamentos e questionamentos. Mas procurou esquecer, da melhor maneira possível, para que o beijo não fosse atrapalhado com desnecessários pormenores.
Findou-se a noite, naqueles segundos intermináveis, e o garçom, exausto pelo horário (o relógio marcava 04:00 da manhã), sorriu, de forma boba e discreta, como se pensasse "é, acho que a gorjeta vai ser grande!". Os dois, completamente distantes do mundo que os rondava, finalizaram o beijo e olharam-se, com uma ternura inexplicável, satisfazendo-os ainda mais perante ao outro.
Pediram a conta, pois era assim, na cabeça de ambos, que a madrugada deveria terminar. Após aquele beijo, depois da afetiva troca de olhares e, lógico, com um cigarro na mão, os dois últimos do maço. A gorjeta, como era de se esperar, foi tremendamente satisfatória para o garçom, que sorriu e os agradeceu pela presença.
Uma mão colada à outra, um sorriso no rosto e uma aparente confusão acerca da trajetória de ambos. Afinal de contas, isso basta.
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Um grão de areia.
Sinto-me como um grão de areia assoprado em meio ao turbilhão de acontecimentos rotineiros. Poeira, um resíduo tão insignificante quanto mínimo. Os dias, através das noites, traduzem parte da vivência diária, atribuem sentido ao nonsense. E como se não bastasse, é necessário experimentar, diversas vezes, o mesmo gosto amargo dos dias que passam, mas não parecem passar;
Dentre todos os absurdos que fazem parte da existência, nenhum é mais frágil e tragicamente cru quanto à própria vida. Vida, ou existência, à essa altura do campeonato pouco importa sua denominação. Eis-nos aqui, aprisionados nessa indescritível epopeia, procurando sentindo entre os olhares tortos e abraços sinceros. Mágico (e irreal) seria definir a vida como brilhante, uma criação perfeita de deuses e anjos, numa convergência absoluta de pensamentos e resoluções. Quem dera...
Subitamente perdidos; nitidamente cansados. Somos nós, sem perceber, à procura do último gole de cerveja e da última memória do dia.
Dentre todos os absurdos que fazem parte da existência, nenhum é mais frágil e tragicamente cru quanto à própria vida. Vida, ou existência, à essa altura do campeonato pouco importa sua denominação. Eis-nos aqui, aprisionados nessa indescritível epopeia, procurando sentindo entre os olhares tortos e abraços sinceros. Mágico (e irreal) seria definir a vida como brilhante, uma criação perfeita de deuses e anjos, numa convergência absoluta de pensamentos e resoluções. Quem dera...
Subitamente perdidos; nitidamente cansados. Somos nós, sem perceber, à procura do último gole de cerveja e da última memória do dia.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Prefiro falar em primeira pessoa
Prefiro dizer sobre o que já sei, o que sinto, ao invés de depositar todas as minhas alegrias, tristezas e ilusões em um pobre personagem. Não que eu vá sempre escrever sobre a minha pessoa, mas acho digno escrever sob uma espécie de "eu-lírico", do qual eu possa escrever por mim, baseando-me nos meus pensamentos. É apenas o que penso, portanto, devo escrever quase sempre em primeira pessoa, mas que fique bem claro essa criação frequente do meu "eu-lírico".
Bem, foda-se.
Porres de meia-noite
Cansado de porres longos, demorados. Quero porres secos, curtos, prazerosos. Cerveja gelada, gente legal e uma conversa tranquila. Sem chateações, sem apurrinhações. Mente vazia de problemas, mas repleta de conversas.
Uma bebedeira dominical emendado num porre sabático. A vida é assim, afinal de contas. Um porre atrás do outro, um problema após o outro, um dia depois da noite. Uma morte após a vida.
É, não preciso dizer tanta coisa. Os porres de meia-noite já falam por mim.
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