Durante uma troca de discos, entra um homem. Magro, aparentemente 1,75, cabelos escuros e olhos castanhos. À essa altura, o relógio, que ficava posicionado em cima do balcão, marcava 02:30 da manhã. Os olhares voltaram-se, de forma discreta e confusa, para o homem que acabara de entrar, sem entender ao certo porque um indivíduo entra em um boteco à essa hora da madrugada.
O homem, cujo apelido era Zé, sentou-se em uma das mesas e, diferentemente dos outros, pediu uma dose de jack, sem gelo. Seus olhos procuravam algo ou alguém, talvez uma pessoa, uma mentira sincera ou uma razão sombria. De certo, o homem estava impaciente, ansioso, balançando os pés continuamente. Esperou mais 15 minutos e levantou-se, indo em direção ao seu carro.
Repentinamente, quando o local estava próximo do horário de finalizar mais um dia do seu expediente, uma mulher, morena, aproximadamente 1,65 de altura, cabelos cacheados e olhos castanhos, entra no bar e pede uma dose de vodka, pura, surpreendendo os zumbis da cachaça. O homem, voltou-se e olhou para o bar, como se ali, num rápido piscar de olhos, estivesse achado seu tão aguardado motivo. A mulher, virou-se após um gole seco na sua bebida e então...
Sorriu. Os dois, aparentemente conhecidos, se abraçaram sem jeito, com vergonha, representando uma certa distância entre ambos. O relógio, à essa altura marcava 02:47 da manhã e estava esvaziando pouco à pouco. Entre bebidas e cigarros, os "zumbis da cachaça" pagavam suas respectivas contas e pediam mais uma cerva "pra viagem", com a finalidade de concluir prazerosamente o desfecho da madrugada, findando, de maneira habitual, com uma latinha e dividindo cigarros derby.
Jazz & blues, direcionavam o clima da noite pra um final melancólico, porém bonito. As expectativas, quando trata-se desse horário, é tão pequena quanto uma formiga. Todavia, ainda havia pelo menos uma história em andamento: o casal, sentado na mesa mais próxima da saída, conquanto trocavam rápidas palavras. Um jogo de olhares estabeleceu-se, contudo, a timidez de ambos era nítida. Enquanto o rapaz lançava discretos sorrisos, a moça mexia impacientemente no cabelo, ajeitando-o à todo momento.
No transcorrer da conversa, a garota reparou num pequeno, porém perceptível detalhe físico do homem: seus dedos, finos e longos, estavam repletos de calos, denunciando sua provável profissão: músico. Intrigada, a garota perguntou:
-Por acaso, você é músico?
-Sim, toco em bares e boates, mas é apenas um bico, não ganho a vida com isso. - respondeu rapidamente o homem.
A mulher, que até então não sabia do talento de seu "amigo", surpreendeu-se com o fato e perguntou logo em seguida:
-Que tipo de música você toca? Rock, sertanejo, mpb...?
- Depende. O meu gênero preferido é rock mesmo, mas em alguns momentos, "preciso" tocar um sertanejo pra galera, já que é o ritmo do momento. Isso até me perturba um pouco, mas no fim, é necessário. - respondeu, com ar de segurança.
A garota então balançou positivamente a cabeça, como se concordasse, mas ao mesmo tempo, ressentisse o que o homem lhe contara.
Após 10 minutos de conversa, eles pareciam, finalmente, com algum nível de intimidade. Não era uma proximidade de quem já se conhecia há anos ou meses, mas o necessário para que ambos, nesse momento, se sentissem à vontade para expor suas ideias e conversarem sobre quaisquer assuntos. O cigarro, consumido em larga escala pelo nervosismo que o momento forçara, era deixado de lado, por alguns breves minutos. Enquanto o rapaz pedia sua quarta dose de Jack, a moça, uma apaixonada por bebidas, pedia sua primeira dose de Jack, iniciando uma mistura duvidosa. E o bar, "já" estava vazio, apenas com os dois jovens e um garçom mais ou menos embriagado, louco pra ir embora, mas esperançoso com a gorjeta que poderia receber.
Findam-se os olhares, em convergência para um único local: a próxima esquina. Vazia, insignificante e um tanto quanto sombria. O pose, fazia um interessante jogo de cores, reluzindo de maneira fraca nos paralelepípedos da rua. Suspeitava-se, um do outro, pelo observar que rondava pela atmosfera. As mãos, geladas, faziam um ligeiro movimento à procura do copo, sem sequer movimentarem os olhos. A atenção, para aquele momento pouco significante p´ra sociedade, mas que significavam muito pra ambos. Enquanto a mulher pensava na próxima ação do rapaz, o homem, coincidentemente, também pensava sobre sua próxima atitude.
- Um beijo, talvez? Não, cedo demais. Um carinho nas mãos? Não, sensível demais. - pensava o homem.
A mulher, por outro lado, esperava qualquer movimento do homem, esperava-o o mais rápido possível, não suportando mais o silêncio da noite.
Foi nesse exato momento, que o homem virou-se na direção da moça e disse, de maneira delicada e direta, o quanto gostava dela. Seu cabelo, seus olhos, seu nariz, tudo, p'ra ele, simbolizava a mais pura perfeição. Até os gestos mais simples, como o trago de um cigarro ou mesmo um olhar distraído, encantavam-no, segundo ele. Enfim, declarou, quase sem pensar, toda a sua admiração e porque não, paixão, pela jovem. A mulher, emocionada e sem-graça, olhava p'ra baixo e mordia vagarosamente os lábios, para evitar um sorriso largo perante as palavras do sujeito. Custava-lhe acreditar no que o homem lhe dissera e, sobretudo, custava-lhe achar palavras apropriadas para dizer.
Apenas silenciou-se. Decerto, faltaram-lhe palavras sensatas mas, finalmente, escancarou o sorriso de uma forma que o homem pudesse perceber a sua felicidade com o que ouvira. Ademais, o momento foi congratulado com um beijo tão tímido quanto sincero, numa forma da mulher expressar fisicamente o que sentia. Conquanto, a mente do homem, enchia-se de pensamentos e questionamentos. Mas procurou esquecer, da melhor maneira possível, para que o beijo não fosse atrapalhado com desnecessários pormenores.
Findou-se a noite, naqueles segundos intermináveis, e o garçom, exausto pelo horário (o relógio marcava 04:00 da manhã), sorriu, de forma boba e discreta, como se pensasse "é, acho que a gorjeta vai ser grande!". Os dois, completamente distantes do mundo que os rondava, finalizaram o beijo e olharam-se, com uma ternura inexplicável, satisfazendo-os ainda mais perante ao outro.
Pediram a conta, pois era assim, na cabeça de ambos, que a madrugada deveria terminar. Após aquele beijo, depois da afetiva troca de olhares e, lógico, com um cigarro na mão, os dois últimos do maço. A gorjeta, como era de se esperar, foi tremendamente satisfatória para o garçom, que sorriu e os agradeceu pela presença.
Uma mão colada à outra, um sorriso no rosto e uma aparente confusão acerca da trajetória de ambos. Afinal de contas, isso basta.
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No transcorrer da conversa, a garota reparou num pequeno, porém perceptível detalhe físico do homem: seus dedos, finos e longos, estavam repletos de calos, denunciando sua provável profissão: músico. Intrigada, a garota perguntou:
-Por acaso, você é músico?
-Sim, toco em bares e boates, mas é apenas um bico, não ganho a vida com isso. - respondeu rapidamente o homem.
A mulher, que até então não sabia do talento de seu "amigo", surpreendeu-se com o fato e perguntou logo em seguida:
-Que tipo de música você toca? Rock, sertanejo, mpb...?
- Depende. O meu gênero preferido é rock mesmo, mas em alguns momentos, "preciso" tocar um sertanejo pra galera, já que é o ritmo do momento. Isso até me perturba um pouco, mas no fim, é necessário. - respondeu, com ar de segurança.
A garota então balançou positivamente a cabeça, como se concordasse, mas ao mesmo tempo, ressentisse o que o homem lhe contara.
Após 10 minutos de conversa, eles pareciam, finalmente, com algum nível de intimidade. Não era uma proximidade de quem já se conhecia há anos ou meses, mas o necessário para que ambos, nesse momento, se sentissem à vontade para expor suas ideias e conversarem sobre quaisquer assuntos. O cigarro, consumido em larga escala pelo nervosismo que o momento forçara, era deixado de lado, por alguns breves minutos. Enquanto o rapaz pedia sua quarta dose de Jack, a moça, uma apaixonada por bebidas, pedia sua primeira dose de Jack, iniciando uma mistura duvidosa. E o bar, "já" estava vazio, apenas com os dois jovens e um garçom mais ou menos embriagado, louco pra ir embora, mas esperançoso com a gorjeta que poderia receber.
Findam-se os olhares, em convergência para um único local: a próxima esquina. Vazia, insignificante e um tanto quanto sombria. O pose, fazia um interessante jogo de cores, reluzindo de maneira fraca nos paralelepípedos da rua. Suspeitava-se, um do outro, pelo observar que rondava pela atmosfera. As mãos, geladas, faziam um ligeiro movimento à procura do copo, sem sequer movimentarem os olhos. A atenção, para aquele momento pouco significante p´ra sociedade, mas que significavam muito pra ambos. Enquanto a mulher pensava na próxima ação do rapaz, o homem, coincidentemente, também pensava sobre sua próxima atitude.
- Um beijo, talvez? Não, cedo demais. Um carinho nas mãos? Não, sensível demais. - pensava o homem.
A mulher, por outro lado, esperava qualquer movimento do homem, esperava-o o mais rápido possível, não suportando mais o silêncio da noite.
Foi nesse exato momento, que o homem virou-se na direção da moça e disse, de maneira delicada e direta, o quanto gostava dela. Seu cabelo, seus olhos, seu nariz, tudo, p'ra ele, simbolizava a mais pura perfeição. Até os gestos mais simples, como o trago de um cigarro ou mesmo um olhar distraído, encantavam-no, segundo ele. Enfim, declarou, quase sem pensar, toda a sua admiração e porque não, paixão, pela jovem. A mulher, emocionada e sem-graça, olhava p'ra baixo e mordia vagarosamente os lábios, para evitar um sorriso largo perante as palavras do sujeito. Custava-lhe acreditar no que o homem lhe dissera e, sobretudo, custava-lhe achar palavras apropriadas para dizer.
Apenas silenciou-se. Decerto, faltaram-lhe palavras sensatas mas, finalmente, escancarou o sorriso de uma forma que o homem pudesse perceber a sua felicidade com o que ouvira. Ademais, o momento foi congratulado com um beijo tão tímido quanto sincero, numa forma da mulher expressar fisicamente o que sentia. Conquanto, a mente do homem, enchia-se de pensamentos e questionamentos. Mas procurou esquecer, da melhor maneira possível, para que o beijo não fosse atrapalhado com desnecessários pormenores.
Findou-se a noite, naqueles segundos intermináveis, e o garçom, exausto pelo horário (o relógio marcava 04:00 da manhã), sorriu, de forma boba e discreta, como se pensasse "é, acho que a gorjeta vai ser grande!". Os dois, completamente distantes do mundo que os rondava, finalizaram o beijo e olharam-se, com uma ternura inexplicável, satisfazendo-os ainda mais perante ao outro.
Pediram a conta, pois era assim, na cabeça de ambos, que a madrugada deveria terminar. Após aquele beijo, depois da afetiva troca de olhares e, lógico, com um cigarro na mão, os dois últimos do maço. A gorjeta, como era de se esperar, foi tremendamente satisfatória para o garçom, que sorriu e os agradeceu pela presença.
Uma mão colada à outra, um sorriso no rosto e uma aparente confusão acerca da trajetória de ambos. Afinal de contas, isso basta.
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